Você já foi ao show de algum artista ou banda que goste muito (ou nem tanto assim)? Assumindo que sua resposta seja “sim”, entremos em uma questão que me atormenta há bastante tempo: o preço dos ingressos. Não sei onde você mora, mas existe uma chance relativamente grande de você precisar pagar caro para assistir seu artista favorito in loco. Mesmo pagando meia entrada, ainda assim muitos shows possuem preços verdadeiramente proibitivos para a maioria das pessoas.
Tomemos como exemplo o último show de Norah Jones no Brasil. Cantora de jazz de grande sucesso na América do Norte, miss Jones desembarcou por aqui no fim de 2004. Incrivelmente, um grande número de pessoas esteve presente no show. Mas por que digo “incrivelmente”? Simples. O ingresso mais barato, no Rio de Janeiro, custou R$ 140. O mais caro, R$ 440. Em 2004, o salário mínimo do Brasil era de R$ 260. Sim, isso mesmo. Para assistir ao show de Norah Jones no Rio, você desembolsaria mais da metade de um salário mínimo.
“Mas quem curte Norah Jones provavelmente não ganha só um salário mínimo”, você pode argumentar. Esse argumento estupidamente preconceituoso, porque dizer que uma pessoa de renda baixa não pode gostar de jazz é preconceito, sim. Não fui ao show de miss Jones por causa do preço do ingresso. E não, eu não ganho salário mínimo, mas considero um abuso você ter que dispor de parte tão grande de sua renda mensal para ter um momento de lazer cultural.

Não sei qual o motivo, mas no Rio Grande do Sul os shows são absurdamente mais baratos. Em 2002, o Helloween, uma das maiores bandas de heavy metal do mundo, tocou no Brasil. Em Porto Alegre, o ingresso foi R$ 50. Em São Paulo, R$ 100. Só o dobro. Isso só para citar um caso. Na capital gaúcha, grande parte dos shows fica mais ou menos por esse preço.
Para falar a verdade, o que me fez escrever esse texto foi a notícia da vinda da banda The Killers – que faz nada mais do que o The Cure fazia há 20 anos, só que com um pouco mais de energia – ao Brasil. Entradas de R$ 200 (o preço de uma cesta básica, só para você saber) para a pista e R$ 350 para pista Premium. Precisa falar mais alguma coisa? Mesmo que você tenha carteirinha de estudante, são R$ 100. Com esse dinheiro, você compra pelo menos três bons livros, o que é muito mais cultura do que assistir a uma cópia requentada de uma banda dos anos 80, na minha opinião.
Sei que os custos para se trazer artistas de fora são altíssimos, e que os organizadores têm que ter lucro também, mas não existiria uma saída para que os ingressos fossem barateados? A verba do Ministério da Cultura é de apenas 0,9% do orçamento da União, o que equivale a R$ 2,1 bilhões por ano. Com esse dinheiro, não se poderia criar alguma espécie de incentivo aos organizadores de eventos, para que as massas pudessem ter acesso aos grandes shows? Sem querer fazer análises políticas, até porque não sou perito no assunto, creio que houvesse interesse da administração pública, os grandes eventos poderiam ser mais acessíveis ao grande público, e a cultura do país não se resumiria a bundas balançando – agora em mais de um estilo musical.

