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O estupro das bilheterias

7 de Setembro de 2009

Você já foi ao show de algum artista ou banda que goste muito (ou nem tanto assim)? Assumindo que sua resposta seja “sim”, entremos em uma questão que me atormenta há bastante tempo: o preço dos ingressos. Não sei onde você mora, mas existe uma chance relativamente grande de você precisar pagar caro para assistir seu artista favorito in loco. Mesmo pagando meia entrada, ainda assim muitos shows possuem preços verdadeiramente proibitivos para a maioria das pessoas.

Tomemos como exemplo o último show de Norah Jones no Brasil. Cantora de jazz de grande sucesso na América do Norte, miss Jones desembarcou por aqui no fim de 2004. Incrivelmente, um grande número de pessoas esteve presente no show. Mas por que digo “incrivelmente”? Simples. O ingresso mais barato, no Rio de Janeiro, custou R$ 140. O mais caro, R$ 440. Em 2004, o salário mínimo do Brasil era de R$ 260. Sim, isso mesmo. Para assistir ao show de Norah Jones no Rio, você desembolsaria mais da metade de um salário mínimo.

“Mas quem curte Norah Jones provavelmente não ganha só um salário mínimo”, você pode argumentar. Esse argumento estupidamente preconceituoso, porque dizer que uma pessoa de renda baixa não pode gostar de jazz é preconceito, sim. Não fui ao show de miss Jones por causa do preço do ingresso. E não, eu não ganho salário mínimo, mas considero um abuso você ter que dispor de parte tão grande de sua renda mensal para ter um momento de lazer cultural.

Não sei qual o motivo, mas no Rio Grande do Sul os shows são absurdamente mais baratos. Em 2002, o Helloween, uma das maiores bandas de heavy metal do mundo, tocou no Brasil. Em Porto Alegre, o ingresso foi R$ 50. Em São Paulo, R$ 100. Só o dobro. Isso só para citar um caso. Na capital gaúcha, grande parte dos shows fica mais ou menos por esse preço.

Para falar a verdade, o que me fez escrever esse texto foi a notícia da vinda da banda The Killers – que faz nada mais do que o The Cure fazia há 20 anos, só que com um pouco mais de energia – ao Brasil. Entradas de R$ 200 (o preço de uma cesta básica, só para você saber) para a pista e R$ 350 para pista Premium. Precisa falar mais alguma coisa? Mesmo que você tenha carteirinha de estudante, são R$ 100. Com esse dinheiro, você compra pelo menos três bons livros, o que é muito mais cultura do que assistir a uma cópia requentada de uma banda dos anos 80, na minha opinião.

Sei que os custos para se trazer artistas de fora são altíssimos, e que os organizadores têm que ter lucro também, mas não existiria uma saída para que os ingressos fossem barateados? A verba do Ministério da Cultura é de apenas 0,9% do orçamento da União, o que equivale a R$ 2,1 bilhões por ano. Com esse dinheiro, não se poderia criar alguma espécie de incentivo aos organizadores de eventos, para que as massas pudessem ter acesso aos grandes shows? Sem querer fazer análises políticas, até porque não sou perito no assunto, creio que houvesse interesse da administração pública, os grandes eventos poderiam ser mais acessíveis ao grande público, e a cultura do país não se resumiria a bundas balançando – agora em mais de um estilo musical.

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Ídolos 2009. Ídolos?

27 de Agosto de 2009

E começou a edição 2009 do reality show musical “Ídolos”, da Rede Record. A essa altura, você já sabe que esse programa nada mais é do que uma adaptação de um reality show estrangeiro – a saber, o “American Idol” -, como toda reality TV do Brasil. Mas o que se pode esperar desse “Ídolos”?

Primeiro, multidões de pessoas que não têm, repito, não têm o menor talento ou aptidão musical (e provavelmente senso do ridículo e autocrítica igualmente nulos), mas creem  que podem ser a próxima Ivete Sangalo ou, meu Deus, o próximo Roberto Carlos. Os candidatos a “ídolo”, em sua maioria, são apenas pessoas que acreditam quando a mãe e/ou o pai dizem “nossa, filho, como você canta bem” e não têm vergonha alguma de passar pelo constrangimento de ouvir esculachos em rede nacional.

Segundo, jurados com uma boa bagagem musical, é verdade – principalmente a cantora Paula Lima, que se não é das mais famosas do país, não é por falta de talento e sim por interesses comerciais, pura e simplesmente -, mas com egos tão inflados quanto seus bolsos devem estar, agora que o programa está no ar. Não raro, é possível vê-los discutindo se algum candidato possui ou não o talento necessário para continuar na disputa. E, mais constrangedor, às vezes essas discussões acontecem na frente do próprio candidato.

Não cabe aqui discutir se os finalistas do programa têm ou não talento, afinal é coerente supor que os jurados, por terem uma experiência considerável no mercado musical, sabem identificar o que vende ou não. O que se deve, sim, discutir, é a relevância de tal programa. Quando o “American Idol” surgiu, dando uma roupagem nova a uma idéia criada muitos anos antes, nos extintos programas de calouros, a audiência americana foi à loucura. Mas há de se considerar que esse tipo de programa é relevante para a cultura estadunidense, que endeusa seus “heróis” (artistas de sucesso, atletas de renome, políticos e empresários bem-sucedidos, entre outros). No Brasil, qual é a importância real de se lançar um “ídolo” da música?

O primeiro programa a tentar fazer algo do tipo em nosso país foi o “Fama”, da Rede Globo. Seria você capaz de dizer quem foi o vencedor da primeira edição do “Fama”? E da segunda? E da terceira? Os tão badalados astros que brilhavam nesse programa simplesmente são ignorados por 99% das pessoas que consomem música no país hoje em dia. E assim foi com o “Ídolos” do SBT (hoje chamado de “Astros” e atualmente copiando o “Britain’s Got Talent”). Por onde anda o Leandro “Pica-Pau”, vencedor do programa?

Na edição de 2008 do “Ídolos”, já na Rede Record, candidatos bons chegaram até a fase final. Mas e daí? Algum deles está fazendo alguma coisa, relevante ou não, para a música brasileira? Ou simplesmente apareceram na televisão, receberam meia dúzia de elogios e hoje vivem de shows em cidades do interior, festas cult e eventos menores? Desafio: alguém sabe dizer o nome de pelo menos quatro dos dez finalistas do “Ídolos” do ano passado?

Longe de mim querer fazer uma análise filosófica disso tudo. Mas é irretorquível o fato de que essa reality TV é apenas um retrato do que é o mundo hoje em dia: imediatista, efêmero e, para o bem e para o mal, descartável. Saudade dos tempos (que não vivi, diga-se) em que programas de música na televisão revelavam verdadeiros e inesquecíveis talentos, como Elis Regina e Chico Buarque.

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